Eu lembro que quando estava na oitava série do Ensino Fundamental tínhamos uma prova de literatura por bimestre. Cada aluno deveria ler um livro que se enquadrasse como Literatura Clássica Brasileira e fazer a prova sobre aquele livro. Minha professora de português, além de inteligente e culta, era muito rígida com o conteúdo e já tinha lido e relido todos os livros dos autores clássicos brasileiros; ou seja, não havia jeito de engana-la, quem não lesse o livro ou só lesse um resumo, com certeza seria reprovado, pois as perguntas eram bem especificas e tratavam do enredo, da construção dos personagens e da ambientação da história.
Sempre fui amigo dos livros, então eu lia uns três por bimestre e escolhia um deles para fazer a prova; mas alguns dos meus colegas sofriam para ler um único livro. Dias antes da prova, alguns alunos começavam a bolar planos mirabolantes para conseguir ler tudo que não leram durante o bimestre ou saiam a caça de versões cinematográficas dos livros que deveriam ter lido (o que quase nunca dava certo).
Foi nessa época que eu li pela primeira vez um livro de Machado de Assis (ou me iniciei em Machado de Assis, como um famoso roteirista de novelas costuma dizer). Não tenho certeza sobre o que achei na época, mas lembro que não fiquei muito empolgado com a história. Depois de mais crescido resolvi ler de novo Dom Casmurro, imaginando que poderia captar os nuances da história que ficaram ocultos a minha mente infantil no passado e poderia então entender melhor a história de Bentinho e Capitu. Não sei se compreendi melhor a história nessa segunda leitura mas fiquei com a certeza de que Dom Casmurro era o livro mais chato e aborrecedor que eu já tinha lido.
Me perdoem os fãs de Machado de Assis, quem tem entre seus maiores defensores algumas pessoas que nunca realmente leram um livro dele, mas Machado de Assis é muito CHATO. É claro que quando criança eu não me interessei pela história; como poderia se todo o enredo não tratava de outra coisa senão pequenas intrigas da burguesia carioca do século XIX (será que daqui a cem anos Bruna Surfistinha vai ser considerada Autora Clássica?). Posso entender que Machado de Assis seja celebrado por criar novos formatos literários, mas a quem interessa o formato se a história é uma porcaria que no máximo despertaria o interesse de outros burgueses ou menos burgueses – qualquer semelhança com aquela novela onde ninguém trabalha e cujo cenário se resume ao Rio de Janeiro não é mera coincidência.
Mas não se engane achando que estou escrevendo este post apenas para atacar um autor que não me agrada. O que pretendo é deixar claro meu repudio por um currículo escolar que afasta estudantes do mundo dos livros lhes oferecendo Machado de Assis. Poucos tem a sorte que eu tive de conhecer outros autores clássicos que valem um pouco mais a pena, como José de Alencar e seus romances indianistas, que embora alguns ainda considerem enfadonhos, são com certeza muito mais excitantes que as câmaras, palacetes e gabinetes de Machado de Assis.
Sabiam que o a disciplina de literatura de algumas escolas britânicas tem Senhor dos Anéis em seus currículos? Interessante, não é mesmo? Mas mais interessante seria tentar convencer os educadores brasileiros á incluir em nossos currículos algum livro que não fosse repugnante ao gosto juvenil e adolescente. Está na hora de entender que privilegiar a cultura nacional nem sempre é a melhor escolha quando se trata de educação.
Acho importante que conheçamos nossos autores, mas envia-los garganta abaixo só vai afastar os mais jovens do mundo literário e eles provavelmente nunca mais perceberão a leitura como um prazer, mas sempre como uma obrigação.
Ensinar literatura é perda de tempo quando não se consegue ensinar o gosto pela literatura. E se oferecer Senhor dos Anéis, Harry Potter, talvez alguns dos excelente autores brasileiros que temos, ou até mesmo Crepúsculo – arghh! – vai fazer com que as crianças e adolescentes aprendam a gostar de ler, então deixemos o senhor Machado empoeirar nas estantes e no falatório dos literatos e optemos pela melhor escolha.
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